Thursday, March 22, 2018

«Quero ter pirilampos no meu quintal, o que devo fazer para os ter?»


Dadas algumas questões que nos têm sido colocadas pelo público (quanto à introdução de pirilampos em certos lugares), sentimos que devemos deixar alguns conselhos que achamos muito importantes:
Compreendemos a atração que as espécies luminosas trazem às pessoas, mas para estas espécies prosperarem são necessárias condições bastante específicas.
Por exemplo, se tem um jardim ou quinta, antes de querer introduzir pirilampos, deverá tentar perceber, primeiro, se já existem lá pirilampos ou outras espécies luminosas (como, pode ver aqui).




Os pirilampos requerem um habitat específico





Se tem a certeza que não tem pirilampos no seu quintal, mas quer ter pirilampos no seu quintal,  primeiro terá que tentar perceber se o seu jardim tem dimensão e condições suficientes.
Talvez haja algo que você tenha que mudar (veja aqui).
Terão portanto, que existir condições para haver pirilampos e se existirem pirilampos nas redondezas, pode ser que colonizem o seu jardim.

Se o seu jardim não tem condições,  pode adoptar uma população de pirilampos na sua zona, que viva num local propício, visitando-a,  investigando-a e assim garantindo que não é esquecida. Quem sabe, possamos tentar que uma nova reserva seja aí criada!

Se estiver em vias de comprar um terreno, também pode optar por verificar primeiro se existem pirilampos por lá e assim terá uma população de pirilampos sob a sua responsabilidade.

Em alternativa, até pode contatar algum amigo ou familiar, que tenha algum/a terreno, jardim ou quinta, onde possam existir seres vivos luminosos e no caso de estarem aí presentes, adoptar essa população local (também pode optar por colaborar connosco com observações, pois a nossa monitorização, está a funcionar desde o início dos anos 90).
Ou então,  pode até fazer parte da nossa rede de Reservas Lightalive (veja como aqui).



       Os pirilampos preferem locais escuros



É possível a introdução de pirilampos em certas condições, mas pode ser um processo muito moroso, pode custar muito dinheiro e será necessário aconselhamento científico e monitorização (pelo menos inicialmente).
Todas estas dificuldades, têm sido observadas em países, onde foi feita a introdução ou reintrodução de pirilampos (mesmo usando variedades locais), em parques urbanos ou espaços verdes devidamente criados para o efeito.
E sempre existe a hipótese da população não sobreviver, por muito tempo, após aparentemente ficar estabelecida (em estado selvagem tal ficaria resolvido com a recolonização a partir de populações limítrofes, caso presentes, claro).
Outra coisa que terá que ter em conta, é que são precisos muitos pirilampos, para uma reintrodução ter boas probabilidades de ser bem sucedida, e será difícil ter um fornecimento suficiente destes insetos luminosos, na natureza, sem que hajam mais consequências negativas, que positivas.
E depois ainda terá que se juntar a elevada taxa de mortalidade das larvas, que se verifica com quase todas as espécies, mesmo em condições aparentemente ideais, de laboratório.
Portanto e apenas perante situações muito extraordinárias (como por exemplo a salvação de alguma população que corra o risco eminente de ser destruída por ação humana) e apenas com aconselhamento técnico, achamos aceitável a deslocação de pirilampos em massa de um local para o outro.


Vamos supôr que alguém transporta pirilampos dos arredores de Coimbra para os arredores de  Lisboa, isto por si só, poderá ter implicações negativas de várias ordens... Pode estar a criar erosão genética, na população de Coimbra de onde está retirar exemplares.


Certas espécies só conseguem viver em certos locais.



E por outro lado, pode estar a impôr condições, em relação às quais os pirilampos podem estar mal adaptados (Lisboa tem condições diferentes), assim como a criar concorrência extra (na corrida pelo uso de recursos básicos de sobrevivência) junto das populações locais.
Existem evidências, que suportam claramente a existência de variedades locais de pirilampo, que poderão estar a evoluir para subespécies e até espécies diferentes.
Muitos pirilampos podem ter uma coloração variável adaptada a um certo local de forma a não serem detetadas por certos predadores.
Podem ter um fenótipo e um comportamento adaptados a certo tipo de presas/predadores, clima, solo, relevo e vegetação.
Podem ter uma cutícula mais espessa para sobreviver em zonas mais secas. 
Todas estas adaptações foram aperfeiçoadas ao longo de milhões de anos!
Podemos correr o risco de andar a misturar populações com carateristicas de adaptação diferentes, diminuindo o número de variedades distintas (empobrecendo a diversidade), e criando variações pouco úteis à nova região em questão  (onde forem introduzidas). 
Certas populações de pirilampos, também pouco se movem com o passar dos anos, como temos notado durante todo este tempo de investigação e isso pode indicar uma forte especialização local.
Adicionalmente, certas populações apenas sobrevivem graças a um número baixo de reprodutores: em bons anos conseguem reproduzir-se muito e em maus anos, reproduzem-se pouco ou nada. E para os ovos eclodirem são necessárias condições próprias de humidade e temperatura, apenas presentes em certos locais (sobretudo durante a fase mais quente do ano, que é quando certas espécies se reproduzem).
Se vamos interferir nessa dinâmica, podemos causar uma extinção local e no fim, acabamos também por provocar a morte dos pirilampos que pretendemos introduzir (pois dificilmente serão suficientes para conseguirem reproduzir-se devidamente em anos com condições mais adversas). 

Agradecemos a vossa compreensão e aqui estaremos dispostos a ajudar, caso nos seja possível.

PS: Se quiserem fazer parte do nosso grupo de voluntários (e participarem em ações de conservação e/ou observação destas espécies) enviem-nos uma mensagem (por aqui ou por email (livinglightfestival@gmail.com)). De novo, obrigado!


                                   Pirilampo prestes a eclodir num microcosmos de musgo